País leva 107 atletas a Londres e se orgulha da média de escolaridade da delegação. Gigante da luta e velocista são as maiores esperanças de ouro
Esporte como resistência. Bandeira de um regime que sobrevive há 53 anos com sufocantes dificuldades financeiras e privações. Como exemplo, um tricampeão olímpico que repetidas vezes disse não às promessas de uma vida confortável fora de seu país, que se orgulhava de, nos ringues, ser vitrine para os ideais comunistas de Fidel Castro e Che Guevara. Teófilo Stevenson, morto em junho, aos 60 anos, será a inspiração. Ao menos daqueles que não sucumbirem à tentação de abandonar a equipe. Sem representantes em esportes coletivos pela primeira vez desde 1964, Cuba chega aos Jogos Olímpicos de Londres com 107 atletas, após um dos ciclos olímpicos mais duros do chamado "esporte revolucionário".
Campeão olímpico de boxe em 1972, 1976 e 1980, Teófilo recusou ofertas de sair do país e se profissionalizar. Anos depois, viu compatriotas seguirem o caminho oposto. No Pan-2007, no Rio de Janeiro, Guillermo Rigondeaux desertou. Sonhava fazer fortuna na Alemanha, mas foi encontrado pela polícia brasileira semanas depois e levado de volta a Cuba. Hoje, dá aula em uma academia na capital, Havana.
Deserção é assunto tabu entre os atletas cubanos. Sempre desconfiados, temem fazer comentários contra o regime. Ao saírem da ilha, ouviram um comovente discurso do governo.
- A delegação vai a Londres com um compromisso duplo: dar seu maior esforço para manter os resultados alcançados por Cuba nesses 54 anos de revolução e o compromisso com a pátria e com o povo. Povo que desenvolveu a capacidade de resistir a quase meio século de bloqueio e privações de todo tipo. Nos vem à memória o exemplo de Teófilo Stevenson, grande entre os grandes, glória do esporte cubano. Ele sempre será lembrado como um verdadeiro atleta comprometido com seu povo e com a revolução; não com o dinheiro - disse Miguel Díaz-Canel Bermúdez, vice-presidente do Conselho de Ministros, em discurso à delegação.
A melhor campanha da história de Cuba em Olimpíadas foi em Barcelona-1992, quando ficou em quinto na classificação geral. Naqueles Jogos, conquistaram 14 medalhas de ouro. Em Pequim-2008, apenas duas, além de 11 pratas e 11 bronzes, e 28ª posição no quadro. O Brasil foi 23º, com três ouros, quatro pratas e oito bronzes.
A média de idade em Londres é de 25 anos, mas é da média de escolaridade da delegação que eles mais se orgulham: segundo ano universitário. O governo atribui as dificuldades nos últimos quatro anos a dois fatores. Por um lado, claro, a complicada situação econômica do país. Por outro, o que chamam de "mercantilização" do esporte.
- Para muitos, o esporte deixou de ser um bem social, de caráter humanista, veículo de formação de valores, como nós o vemos. O esporte se converteu em mercado e, como tal, seu principal interesse cada dia mais está na quantidade de dinheiro que é capaz de gerar. Submete atletas a sobrecargas desumanas. São tratados como produto - disse o ministro.
Apesar da decepção de não classificar as equipes de vôlei - no feminino, o país é tricampeão olimpico -, a meta de número de atletas classificados foi cumprida. Agora o desafio será superar o desempenho de Pequim-2008. Lá, uma das duas medalhas de ouro foi de Dayron Robles. O velocista venceu depois que o chinês Liu Xiang, ao se lesionar na largada dos 110m com barreiras, calou o Ninho do Pássaro.
Mas é de um gigante que deve vir a medalha mais "fácil" de Cuba. Mijail López, ouro nos dentes, assusta todos os adversários. Atual campeão olímpico e tetra mundial da categoria até 120kg, ele é carinhosamente chamado pelos lutadores brasileiros de "abominável gigante". E se torna ainda maior quando está ao lado do baixinho Gustavo Eddy Balart, da faixa de peso - 55kg.
Gustavo, assim como alguns de seus companheiros de delegação, é figurinha fácil na Zona Internacional da Vila dos Atletas. Aproveita o serviço gratuito de telefoniapara falar com a família e com os amigos. É um dos atletas cubanos que tiveram a chance de conhecer Teófilo.
- Eu tinha 12 anos e estava em um campeonato nacional quando fui apresentado a ele. É um grande exemplo para todos nós. Vamos, sim, carregar o exemplo dele aqui nas Olimpíadas - conta ao GLOBOESPORTE.COM.
Ultrapassando ou não a marca dos dois ouros, Cuba quer sair de Londres como um exemplo. Quer mostrar que as disputas, por vezes, vão além dos uniformes.
- Trata-se mais uma vez da globalização da solidariedade e do crescimento humano contra a globalização neoliberal que pretende destruir os valores do esporte revolucionário cubano. O esporte cubano é uma conquista da Revolução, um direito do povo, e tem um enorme prestígio mundial. Mas nosso desafio em Londres será muito complexo - disse o ministro.







Nenhum comentário:
Postar um comentário